A contribuição dos fundos independentes que apoiam organizações, movimentos e lideranças da sociedade civil é de grande importância para a evolução do cenário filantrópico do país. O Prosas tem tido contatos frequentes com essas organizações e notamos que muitos investidores ainda não conhecem o trabalho desses fundos – por isso resolvemos mostrar como funciona o trabalho da Rede de Filantropia para a Justiça Social.

Em maio de 2018, foi lançado o relatório “Filantropia no Brasil” que traz um rico panorama sobre o tema no país. Um dos movimentos mais expressivos narrados nesse documento é o surgimento de uma nova filantropia para justiça social, representada pelos membros da Rede de Filantropia para Justiça Social.

A Rede é formada por nove organizações que trabalham com temas diversos vinculados a direitos humanos e justiça social, como o fortalecimento do protagonismo de mulheres, prevenção de DST/Aids e sustentabilidade socioambiental. Elas captam recursos de indivíduos, empresas e organismos internacionais e doam para organizações da sociedade civil (OSCs) e projetos que atuam em diversas  causas em todo o Brasil.

Dentre as organizações que formam a Rede, duas já utilizaram o Prosas para a gestão de seus editais. São elas: Fundo Posithivo (apoia organizações que trabalham no campo do HIV/Aids e das Hepatites Virais) e o Fundo Baobá (promove ações de equidade racial).

A seguir, confira uma entrevista que fizemos com Graciela Hopstein, coordenadora executiva da Rede e organizadora do livro “Filantropia de justiça social, sociedade civil e movimentos sociais no Brasil“, que reúne 22 artigos de especialistas nacionais e internacionais sobre o tema.

Graciela Hopstein

 

Prosas: Poderia nos dizer o que é e como funciona a Rede de Filantropia de Justiça Social?

Graciela Hopstein: A Rede de Filantropia para a Justiça Social é um ator estratégico no campo do grantmaking (doação de recursos financeiros e de apoio a organizações da sociedade civil).

Por meio de estratégias diversificadas de apoio, as organizações membros da Rede promovem o acesso democrático a recursos financeiros. Isso acontece em campos temáticos variados, em áreas geográficas distantes e “periféricas”, envolvendo populações marginalizadas (e muitas vezes criminalizadas) com relação ao acesso aos direitos.

É importante salientar que a Rede tem como objetivo fortalecer e promover a filantropia de justiça social no Brasil, na perspectiva dos direitos humanos, raciais, de gênero, socioambientais e desenvolvimento comunitário. Além de difundir e dar visibilidade às organizações membros, ressaltando sua atuação e contribuição para que possam ser reconhecidas como alternativas de investimento social.

Prosas: Quem são os integrantes membros da Redes?

Graciela Hopstein: Os membros da Rede de Filantropia de Justiça Social começaram a surgir a partir dos anos 2000, no contexto do processo de retirada do financiamento internacional do Brasil, com a finalidade de apoiar as demandas de ONGs e movimentos sociais no país.

Os nove fundos e fundações comunitárias que a integram representam uma alternativa efetiva de financiamento e fortalecimento de pequenas e médias organizações e de movimentos que atuam no campo de direitos.

As organizações membros reúnem as seguintes características comuns: atuam no campo de filantropia de justiça social e/ou comunitária; mobilizam e doam recursos para apoio  iniciativas da sociedade civil em diversas áreas temáticas e geográficas; têm como preocupação a transformação da realidade social brasileira e a redução das profundas desigualdades sociais e de acesso aos direitos.

Prosas: Como as organizações da Rede são financiadas? Quanto elas destinam de recursos para as OSCs e movimentos sociais do Brasil?

Graciela HopsteinPara a maioria das organizações da Rede, os recursos provêm da filantropia internacional (70%) e isso certamente ainda representa um entrave. Embora recentemente alguns membros tenham estreitado laços com governos, com a filantropia corporativa ou diretamente com empresas, a mobilização de recursos locais para apoiar sociedade civil ainda representa um grande desafio.

As modalidades de apoio ou formas de fazer grantmaking desenvolvidas por elas são diversificadas: a maioria utiliza a estratégia de concurso público de projetos, por meio de editais. Há também a doação de recursos de forma direta, a partir de apresentação de propostas e/ou acordos com demandas específicas, para atender necessidades e urgências, como eventos e conferências estratégicas, por exemplo.

De acordo com um levantamento que fizemos, entre os anos 2000 e 2017, as organizações membros doaram, de forma direta, um total de R$ 146.895.761 para 10.669 ONGs e movimentos sociais no Brasil. Esses dados indicam que a atuação da Rede é significativa em termos de alcance e volume de recursos doados para apoiar iniciativas vinculadas ao campo dos direitos humanos e da justiça social.

Em média, 80% dos membros baseiam suas ações em teoria de mudança social, realizam atividades de desenvolvimento de capacidades junto aos seus parceiros, além de possuírem sistemas próprios de monitoramento e avaliação de suas iniciativas.

Prosas: Como a atuação dos membros da Rede se diferencia de outros tipos de doadores?

Graciela Hopstein: Para os membros da Rede, apoiar organizações e movimentos sociais é uma estratégia essencial para o fortalecimento da sociedade civil brasileira e também da democracia do país, uma vez que aponta para a promoção do acesso aos direitos – ter direito aos direitos – que é o ponto de partida fundamental para a sua consolidação.

São organizações que estão ancoradas no contexto sócio-político brasileiro e latino-americano, com um profundo conhecimento das realidades e tecidos territoriais, uma forte capacidade de articulação e compreensão das demandas específicas, proporcionando resposta imediata às necessidades de grupos, coletivos e movimentos locais

Precisamos, no entanto, desconstruir a visão de que se tratam de “fundos intermediários”. Embora a maioria dos membros mobilize recursos com fundações internacionais, elas devem ser concebidas como parceiras das grandes fundações doadoras. Isto pela sua capacidade de mobilização e articulação, com aptidão para defender causas e incidir de forma colaborativa com as suas agendas e estratégias de atuação.

Prosas: Quais são os principais desafios para esse perfil de organização nos próximos anos?

Graciela Hopstein: A Rede irá procurar reforçar e ampliar a sua atuação por meio do fortalecimento de parcerias e da incorporação de novos membros atuantes no campo da filantropia de justiça social e comunitária.

Também consideramos estratégica a produção e a divulgação de conhecimentos por meio da publicação de artigos e da condução de estudos, levantamentos e pesquisas inéditas no campo do financiamento das organizações da sociedade civil e grantmaking no Brasil. Isso vai nos permitir conhecer em profundidade o escopo, o alcance e os resultados dessas iniciativas voltadas para apoiar e fortalecer a atuação de ONGs e movimentos sociais.

A presença da Rede em fóruns internacionais e a organização de eventos locais também representam ações estratégicas que continuaremos fortalecendo. A partir de ações concretas e diálogos com stakeholders e parcerias, a Rede poderá se tornar referência não apenas no Brasil, mas também na América Latina e, de forma geral, no Sul Global.


Anota aí: sabemos que os editais são essenciais para a viabilização dos projetos desenvolvidos por fundos e fundações comunitárias. Se você atua em alguma instituição desse tipo, clique aqui e saiba como o Prosas pode te ajudar na gestão dos seus editais.