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2020, o ano do Impacto Social (ou como extrair bons exemplos em meio à Covid-19)

Ao longo deste texto você encontrará diversos links para sites e artigos úteis sobre a Covid-19 e o campo do Impacto Social. Recomendamos a leitura!

Um ano promissor para o Impacto Social

O ano de 2020 começou com várias notícias animadoras para quem atua na área social.

Segundo relatório global da Accenture, uma das maiores consultorias do planeta, o “Novo Capitalismo” seria a tendência número 1 no mundo corporativo neste ano. O documento trouxe uma exaltação ao “lucro com propósito” e uma previsão de exigências mais altas nos padrões de governança social e ambiental (ecoando a agenda liderada pelo Financial Times). 

Ainda em janeiro, outras publicações reforçaram as previsões de que este seria o “ano do Impacto Social”:

  • Larry Fink, CEO da BlackRock, um dos maiores fundos de investimento do mundo, publicou uma carta direcionada aos líderes empresariais, colocando a sustentabilidade e a responsabilidade social no centro das atenções das finanças corporativas. 

Para quem trabalha com impacto social há quase uma década, como nós, era como um sonho se materializando. Tudo desenhava um ano em que nossas pautas seriam protagonistas nas estratégias empresariais, deixando de ocupar um lugar periférico nas agendas corporativas. 

Ainda assim, nem tudo eram flores: nessa mesma época, o Terceiro Setor brasileiro sofria críticas severas da Presidência da República. O presidente chegou a pedir o fim das doações para ONGs atuantes na Amazônia, reforçando os comentários nada elogiosos já feitos ao longo de sua trajetória e de seu mandato.

No meio do caminho tinha uma pandemia…

Escrevemos este artigo menos de três meses após as notícias citadas, atordoados por um cenário sem precedentes: a pandemia global da Covid-19, que obrigou o planeta a ficar em casa, em um inédito isolamento social coletivo. Uma doença avassaladora, que veio impactando ricos e pobres, pequenos empreendedores e grandes corporações, potências mundiais e países em desenvolvimento. Até aqui, quase 120.000 pessoas perderam suas vidas em todo o planeta e um cenário de recessão econômica mundial é previsto.

Este artigo foi produzido no auge da pandemia, quando qualquer resultado ainda é incerto para nós – como profissionais do Setor Social, cidadãos e empreendedores.

Oportunidades para o Terceiro Setor e a Filantropia em meio ao caos

Se o início do ano dava ótimos sinais para o investimento social, a Covid-19 não deixou dúvida sobre a indissociabilidade entre o mundo dos negócios e questões sociais. No dia em que escrevemos este texto, mais de R$ 2,2 bilhões já foram doados por empresas e pessoas físicas para iniciativas emergenciais no Brasil, segundo o Monitor das Doações criado pela ABCR. Em meio a essa onda de solidariedade, foi anunciada a maior doação da história do país: a criação de um fundo de Saúde pelo Itaú Unibanco, no valor de 1 bilhão de reais. 

Este é um momento histórico na Filantropia brasileira. Para fins de comparação, as últimas edições do Censo do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) mostram um patamar de cerca de R$ 3 bilhões aportados por ano pelos maiores investidores sociais do país – e já alcançamos dois terços desse montante nos primeiros quatro meses de 2020. Grande parte das doações foi direcionada para ONGs, que conhecem mais do que ninguém a realidade das pessoas de maior vulnerabilidade social no país, por atuar com elas diariamente. Se ainda eram alvo de críticas por parte da sociedade, essas organizações têm agora uma oportunidade ímpar de mostrar a sua força.

Trata-se de um setor composto por mais de 780.000 organizações, que geram mais de 2 milhões de empregos formais.

 Ainda não é possível saber quais os impactos da pandemia no futuro deste setor – inclusive porque ainda não se sabe por quanto tempo o país ficará em quarentena. No entanto, já antecipamos um aspecto importante desta leitura a partir daqui: este é um texto propositivo e otimista. Não queremos reforçar as más notícias que já inundam nossas vidas todas as vezes que ligamos a televisão ou abrimos nossos aplicativos de mensagens. 

Desafios importantes existem e alguns serão listados mais à frente, mas queremos reforçar as oportunidades que surgem em meio ao caos. Cerca de um mês após a chegada do Coronavírus no Brasil, já é possível perceber importantes reflexos para o Setor Social no país.

Espalhando otimismo

1. Acelerando a digitalização do Terceiro Setor: 

A Covid-19 impôs, sem qualquer chance de planejamento prévio, isolamento social imediato para todas as esferas da sociedade. Um dos fenômenos mais curiosos é como a pandemia está obrigando empresas, ONGs e governos a acelerar seus processos de digitalização.

Para o Terceiro Setor, isso vale tanto para a digitalização de parte das atividades realizadas pelas organizações com os beneficiários finais, que subitamente passaram a ser realizadas em meio digital (quando possível), quanto para as próprias rotinas administrativas das ONGs.

O mundo online também tem funcionado como espaço de capacitação e rede de apoio, como o recém criado Portal do Impacto, que traz uma série de conteúdos e webinars para as ONGs lidarem com o cenário da pandemia.

No campo da captação de recursos, obrigou as organizações a migrarem seus esforços de arrecadação para o meio digital – até porque algumas ações tradicionais, como bazares e eventos presenciais, tornaram-se inviáveis. É impressionante a quantidade de recursos mobilizados e de campanhas bem sucedidas em diversos sites de crowdfunding (como a Benfeitoria e a Vakinha) que já ultrapassaram R$ 130 milhões arrecadados de acordo com a ABCR. 

O aumento da arrecadação também trará a responsabilidade de aumentar a transparência nos meios digitais das organizações sobre como essas doações estão sendo utilizadas.

(Uma das possibilidades mais interessantes das ONGs aumentarem sua presença digital é pelo benefício do Google Grants, que oferece até 10 mil dólares mensais para as organizações divulgarem suas ações e captarem doações . Para saber mais sobre isso, clique aqui).

2. Testando novos modelos de doação e captação de recursos

É nos momentos mais difíceis que as pessoas – e o Terceiro Setor – se ressignificam e buscam soluções criativas para seus problemas.

Por exemplo, a ONG Gerando Falcões uniu-se a grandes empresas como a Ticket e Accenture para testar um novo modelo de doação de cestas básicas “digitais” chamado “Corona no Paredão“. Trata-se de um cartão tipo vale-alimentação, distribuído por meio de uma rede de organizações parceiras em diversas cidades do Brasil, que habilitam as pessoas a fazerem compras nos estabelecimentos de sua preferência. Mais de R$ 10 milhões já foram arrecadados e os cartões poderão ser recarregados virtualmente nos próximos meses. Trata-se de uma forma de dar autonomia para que cada um decidir como gastar esses recursos, ao contrário das cestas básicas físicas – que, entre outros fatores, dependem de uma logística de distribuição complexa e podem ter seu uso limitado pela ausência de gás na casa de quem recebe.

Em Belo Horizonte, o Centro Cultural Lá da Favelinha, situado no Aglomerado da Serra, está confeccionando jalecos para Unidades de Pronto Atendimento (UPA) da cidade e máscaras para a prevenção da doença pelos habitantes de BH. Com isso, está gerando renda para as costureiras da comunidade e ajudando no combate ao coronavírus. E deu até no NY Times!

Outra inovação importante foram as lives promovidas por artistas brasileiros no Youtube, batendo recordes mundiais com mais de 3 milhões de visualizações simultâneas. Em quase todas, um QR Code na tela direcionava os espectadores para uma iniciativa online de arrecadação de recursos para causas sociais. Pelas dados disponíveis nas diversas fontes já citadas, as principais lives arrecadaram mais de R$ 1,5 milhões até agora. Já existe um calendário de novas apresentações virtuais até o fim do mês.

3. Diversificando formas de atuação da filantropia empresarial

O álcool em gel foi um dos produtos que ficou em falta por conta da rotina de higiene imposta pela Covid-19. Para suprir a falta dele, a Ypê, empresa fabricante de sabão de lavar roupas, adaptou seu processo de produção para fabricar também o álcool em gel para distribuição gratuita em hospitais. Medida semelhante foi adotada pela Cervejaria Ambev e outras marcas. A indústria automotiva, por sua vez, destinou suas linhas de produção à montagem de respiradores.

Outro produto em falta neste período, principalmente para profissionais de Saúde, foram as máscaras de proteção facial. Numa iniciativa inovadora, a Gerdau vai produzir e distribuir, junto com a Women in 3D Printing, mais de 10.000 máscaras para esses profissionais.

Este link traz inúmeras outras iniciativas realizadas nesse sentido por empresas no Brasil.

4. Destaque para causas e temas

Em meio a essa corrente de solidariedade, algumas causas saem fortalecidas junto ao doador brasileiro. Sabemos que a maioria das doações são emergenciais e inevitavelmente vão para algumas áreas que lidam mais diretamente com a doença, mas somos otimistas que isso pode trazer reflexos para doações futuras.

A área da Saúde, que não é uma das preferidas dos investidores sociais brasileiros (como nos mostra os dados do Censo GIFE), sai fortalecida desse movimento. A população (e os doadores) passa a perceber ainda mais a importância de fortalecer a saúde pública no país. Uma das campanhas mais bem sucedidas até aqui, realizada pela Comunitas, já arrecadou mais de R$ 23 milhões para a compra de respiradores para hospitais de São Paulo.

Outro tipo de organização que ganha espaço são as associações de base comunitária, com um papel de extrema relevância no isolamento social nas favelas (como é o caso da Associação de Moradores de Paraisópolis) e no mapeamento de pessoas em maior situação de fragilidade diante da pandemia, como mostra o trabalho com dados feito pela Redes da Maré, ONG atuante num dos maiores complexos de favelas do Rio de Janeiro.

Por fim, destacamos a causa do Consumo Consciente. O período de quarentena tem trazido à tona temas como a importância de se comprar dos pequenos empreendedores e as pessoas têm se deparado com a necessidade de praticar consumo consciente para evitar desabastecimento nos supermercados.

Os desafios são imensos

Este artigo foi criado para realçar oportunidades que surgiram em meio a esse período e que querermos que se transformem em um legado importante para a atual e as futuras gerações. Esperamos que muitas dessas doações emergenciais que surgiram em meio à Covid-19 se transformem em doações recorrentes para o Terceiro Setor e que contribuam com a cultura de doação no Brasil.

Não podemos, no entanto, subestimar os profundos impactos econômicos que essa crise terá para sociedade, incluindo o Terceiro Setor. Não queremos relativizar a perda de vidas, que precisa ser evitada por meio do isolamento social (#FiqueEmCasa) e de cuidados básicos de higiene – embora, nas favelas, o acesso à água potável e aos materiais de limpeza sejam desafios ainda pouco discutidos.

Sabemos que certas organizações não vão resistir a esse período e fecharão as portas. Diversas medidas de socorro lançadas pelo Governo para salvar as empresas não se estendem ao Terceiro Setor, que pode sofrer ainda mais do que o setor com fins lucrativos. Diante disso, é imprescindível que as parcerias e os repasses governamentais sejam mantidos e flexibilizados! 

O impacto econômico pode diminuir o valor disponível para investimento social pelas empresas, principalmente via incentivos fiscais, que dependem do lucro e das vendas que dificilmente virão neste ano num provável cenário de PIB negativo. 

Setores inteiros como a Cultura e o Esporte, que envolvem aglomerações, estão sendo profundamente impactados pelas medidas de isolamento social, cujo fim ainda é incerto, e possivelmente continuarão sofrendo com restrições mesmo após a quarentena. É preciso cuidar desses setores com medidas emergenciais específicas, visando reduzir os danos já causados.

Esperamos que, depois desta tormenta, o Terceiro Setor e a Filantropia do Brasil saiam fortalecidos.

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